Como conversar com a filha sobre menstruação

Se você está procurando como conversar com a sua filha sobre menstruação, o problema provavelmente não é o conteúdo. É achar a hora e o jeito de começar.

A informação está em qualquer lugar hoje. O que ninguém ensina é o formato: em que momento puxar, quanto dizer, o que fazer quando ela desconversa e como não deixar virar uma palestra.

É disso que trata esse texto. Tem um passo dos quatro que costuma ser o que decide tudo, e quase todo mundo pula justamente ele.

Por que a conversa trava

Quase todo mundo tenta uma dessas três coisas, e as três falham pelo mesmo motivo.

  • Esperar ela perguntar

    A gente pensa que quando ela quiser saber, ela pergunta. Só que a pergunta muitas vezes não vem, e o silêncio não significa desinteresse. Enquanto a gente espera, ela continua aprendendo, só que na escola, no grupo ou no vídeo que apareceu sozinho. E a primeira explicação que ela recebe é a que fica.

  • Entregar alguma coisa e sair de perto

    Um livro na estante, um vídeo, um "vê isso aqui depois". Ela até lê, mas lê sozinha, e a conversa que você queria ter continua não acontecendo. Você fica do lado de fora do assunto de novo, agora achando que já fez a sua parte.

  • Sentar e ter "a conversa"

    Aquela conversa grande, de uma vez só, com tudo que você pesquisou. O problema é que isso vira palestra, e palestra é constrangedora dos dois lados. Ela se fecha, você sente que já disse o que tinha para dizer, e o assunto não volta mais.

O que a gente faz O que ela entende
Espera ela perguntar Aqui não se fala disso
Entrega o livro e sai Esse assunto é para eu resolver sozinha
Senta e explica tudo Eu virei um problema a ser tratado

O que trava não é o conteúdo

A gente não trava por falta de informação. Trava porque o assunto chega num momento qualquer, no carro, no banho, escovando o cabelo, e não existe um começo pronto na mão.

E não existe porque a gente nunca viu ninguém ter. Quem cresceu no silêncio aprendeu só dois jeitos de lidar com o tema: ficar quieto ou despejar tudo de uma vez. Na hora, sai um dos dois.


O método ABRI, em quatro passos

O que resolve é ter um formato. Berenice Shakti, fisioterapeuta pélvica que trabalha com esse tema há mais de vinte anos, chama esse formato de ABRI. Nenhum dos quatro passos exige que você saiba mais sobre o assunto do que já sabe hoje. Eles mudam a forma da conversa, não o conteúdo.

A de Acolher

Antes de qualquer resposta, dizer que foi bom ela ter perguntado. Parece pouco e é o que decide se vai existir uma segunda pergunta. Ela está testando se esse assunto pode ser falado com você. Se a primeira reação for susto, riso ou bronca, ela aprende que não pode e leva a dúvida para outro lugar.

B de Buscar entender

Em vez de responder na hora, devolver uma pergunta. Onde você ouviu isso? O que você acha que é? Isso te dá duas coisas: tempo para respirar e o tamanho exato da dúvida. Quase sempre ela está perguntando algo bem menor do que você imaginou.

R de Responder o suficiente

Verdade, sem desconversar e sem inventar história, mas só o que aquela idade pediu. Se ela perguntou por que sai sangue, a resposta é sobre isso, não sobre tudo que vem depois. É esse passo que resolve o medo de falar cedo demais: cedo ou tarde deixa de ser característica do assunto e vira uma decisão sua, dose a dose.

I de Irrigar

Nenhuma planta cresce porque alguém jogou três litros de água de uma vez. Ela cresce porque alguém regou um pouco todo dia. A conversa que funciona é a que volta: um pouco hoje, um pouco na semana que vem, por outra porta, até o assunto virar coisa normal da casa.

É o irrigar que faz ela te procurar da próxima vez, porque ela já sabe que com você esse assunto pode ser falado.

Irrigar não é repetir a mesma conversa. É voltar no tema por outro caminho. Um comentário sobre uma cena da série, uma pergunta no caminho da escola, uma lembrança sua de quando você tinha a idade dela. Cada volta dessas é pequena e não parece grande coisa. Somadas ao longo de meses, elas fazem o que nenhuma conversa grande consegue fazer.

Por onde começar, na prática

Duas regras práticas ajudam mais que qualquer roteiro. A primeira é falar de lado, não de frente: no carro, lavando louça, caminhando. Sem contato visual direto o constrangimento cai pela metade, dos dois lados. A segunda é começar por você, não por ela. Contar como foi com você tira a menina do centro da cena, que é exatamente o lugar onde ela não quer estar.

Se ela tem 8 ou 9 anos

A entrada mais fácil é o corpo que muda, sem falar ainda do sangue. Que o corpo vai crescer, que vai mudar de forma, que isso acontece com todo mundo em tempos diferentes. Essa é a fase mais confortável de todas, porque nada está acontecendo com urgência. Para saber em que ponto ela está, veja os sinais que antecedem a primeira menstruação.

Se ela tem 10 ou 11 anos

Aqui já vale nomear: o que é menstruação, por que acontece, o que ela vai ver. E combinar o prático antes de precisar: onde fica o absorvente em casa, para quem ela avisa, o que faz se acontecer na escola. A lista do que deixar pronto está em o que colocar no kit.

Se ela tem 12 ou mais, ou já menstruou

O tema deixa de ser introdução e passa a ser companhia. Ciclo, autocuidado, o que ela vê na internet, namoro, consentimento e limites. Nessa altura a conversa depende bem mais de você ter construído o hábito do que de qualquer explicação nova.

O que o silêncio faz com uma menina

Para uma menina sem nenhuma informação prévia, sangrar não significa puberdade. Significa machucado, doença ou morte, nessa ordem de medo. Umas escondem a roupa suja, outras ficam caladas o dia inteiro na escola esperando aquilo passar.

Esse relato aparece o tempo todo em comentários de mulheres adultas. Uma leitora escreveu assim: "a primeira menstruação foi um horror para mim, ninguém me havia preparado, pensei que estivesse morrendo, não queria ir às aulas de educação física".

O silêncio também ensina. Quando um assunto nunca é nomeado dentro de casa, a criança aprende que aquilo é proibido ali. O relatório do UNICEF e do UNFPA sobre menstruação no Brasil não deixa dúvida sobre isso: substituir o nome por eufemismo apaga da vista um fenômeno normal do corpo e abre espaço para mitos que prejudicam meninas por décadas.1

Falar cedo não adianta nada, e isso não é opinião

O medo que mais adia essa conversa é o de despertar curiosidade antes da hora. A evidência aponta para o contrário.

O documento de referência internacional sobre educação em sexualidade, assinado em conjunto por UNESCO, UNICEF, UNFPA, ONU Mulheres, UNAIDS e Organização Mundial da Saúde, revisou um volume grande de estudos para responder exatamente essa dúvida. A resposta é que esse conteúdo não antecipa a primeira relação, e que quando é bem feito contribui para adiar e para diminuir comportamento de risco.2

Existe ainda um segundo efeito, menos falado. Uma criança que conhece o próprio corpo pelo nome correto consegue contar quando alguma coisa errada acontece com ela. Uma criança que só conhece apelidos não consegue descrever, e o relato dela muitas vezes não é nem reconhecido como denúncia pelo adulto que ouve.

E o custo do outro lado é medido. No Brasil, 11,4% dos bebês nascidos em 2024 são filhos de mães adolescentes, contra 14,7% em 2019.3 Entre as mulheres de 14 a 29 anos que abandonaram os estudos, 23,1% apontam a gravidez como motivo, atrás apenas da necessidade de trabalhar.4 Informação sozinha não resolve um problema dessa dimensão. Mas ela é a única parte que começa dentro de casa, de graça, e muito antes de tudo isso.


Quem criou esse método viveu o outro lado

Berenice cresceu numa casa onde esse assunto não existia.

"Eu fui criada no silêncio. Não me faltou nada em casa, mas informação sobre o corpo não era assunto. Aos 17 anos eu engravidei."

Berenice Shakti

Anos depois, atendendo mulheres no consultório, ela começou a reconhecer um padrão que já conhecia por dentro.

"No consultório eu reconhecia em cada paciente o preço daquilo que ninguém falou. Um preço que eu mesma paguei."

Berenice Shakti

O problema do irrigar, que é o passo mais importante dos quatro, é que ele exige justamente o que falta no meio da correria: lembrar de voltar no assunto e ter o que falar quando volta. Dá para ter uma boa conversa numa noite e passar três meses sem tocar no tema. Isso não é descuido, é falta de um jeito de trazer o assunto de volta sem ficar forçado.

O livro O Diario de Adelaine

Dois materiais que fazem esse trabalho por você

O Diário de Adelaine é um conto ilustrado, escrito para a menina ler. Adelaine cresceu num reino cinzento, governado por um rei que havia banido tudo que lembrasse o feminino: as cores, as canções, os conhecimentos sobre o corpo e até a memória das mulheres que vieram antes. Quando o corpo dela começa a mudar, ela é expulsa para a floresta. É lá, com as mulheres que guardam essas sabedorias, que ela aprende o que ninguém tinha contado.

Ele resolve a parte mais difícil da conversa, que é tirar a sua filha do centro da cena. Lendo sobre uma personagem, ela se reconhece sem se expor, e o que ela leu volta depois em pergunta feita por ela. Entram na história a menstruação e os ciclos, as mudanças do corpo, o autocuidado, o consentimento e como a vida é gerada.

Paginas ilustradas do livro O Diario de Adelaine
Indicado a partir dos 9 anos. Funciona antes e depois da primeira menstruação.
Capa e contracapa de O Diario de Adelaine
A sinopse na contracapa já abre conversa sozinha, antes mesmo da primeira página.

O Diário de Adelaine · de R$ 77,00 por R$ 69,90 · frete grátis · a partir dos 9 anos

Ver o livro

Cartas para Adelaine é a parte do irrigar. São 25 cartas, cada uma com um tema e uma frase curta na voz da própria criança. Vem junto um livrinho que explica aquele tema em meia página, com a informação certa para a idade. Depois vêm as perguntas, e aqui está o detalhe que muda a conversa: quem pergunta é ela, e pergunta sobre a sua vida. Como foi para você nessa fase? Você teve vergonha? Você não precisa saber a resposta certa, precisa contar a sua história. E por último vem uma pequena prática para a semana, que é o irrigar acontecendo: um pote de perguntas, uma palavra-código para pedir ajuda, um acordo colado na parede.

Você lê antes, escolhe a carta que faz sentido hoje e guarda o resto para daqui a um ano. Existe a versão para meninas e a versão para meninos, com 32 cartas.

Cartas para Adelaine · de R$ 143,00 por R$ 129,90 · frete grátis · 25 cartas mais livreto

Ver as cartas

O que quem usa conta

"Uso em aulas de yoga infantil com alunas de 10 anos. O material das cartinhas é enriquecedor e abre espaço de forma sutil para diálogo sobre as questões do corpo da menina moça, consentimento, confiança em si mesma, entre outros temas importantes que muitas mães têm dificuldade de falar."

Potira Del Duca Gomes

"Que material sensível. As cartas trazem todas as questões que mais preocupam nessa fase e sobre as quais às vezes é difícil conversar. Estou absolutamente encantada."

Raquel Junia de Magalhães

"Ótima experiência para fortalecer vínculos entre pais e filho enquanto ensinamos valores. Foi bastante divertido e enriquecedor este momento."

gabriellawmfontes

Com que idade começar a falar sobre menstruação?

A partir dos 8 ou 9 anos, ou assim que os primeiros sinais de puberdade aparecerem. Não precisa esperar a menstruação chegar, e o melhor momento é antes.

E se ela não quiser conversar?

Não insista naquele dia. Insistência vira pressão e fecha o assunto. Deixe o material disponível e volte no tema depois, por outra porta, num momento em que ela não seja o centro da cena.

Eu não sei o que responder. E agora?

Você não precisa saber tudo. O segundo passo do método existe para isso: devolver uma pergunta antes de responder te dá tempo e mostra o tamanho real da dúvida, que quase sempre é menor do que parece.

Acho que já perdi a janela. Ela já menstruou.

Não perdeu. A menarca não encerra o assunto, ela abre. Depois dela vêm ciclo, autocuidado, namoro, consentimento e limites, e tudo isso ainda está pela frente. Se foi há poucos dias, veja o que fazer agora.

Falar cedo não vai adiantar assunto?

Não. As orientações internacionais de educação em sexualidade, publicadas em conjunto por seis agências da ONU, concluem que esses programas não antecipam o início da vida sexual e que os de boa qualidade contribuem para adiá-lo.

O pai pode conduzir essa conversa?

Pode. O método não depende de quem fala ter passado pela experiência. O passo de contar a própria história vale igual, e às vezes vale mais, justamente por ser um ponto de vista diferente.

Minha família é de valores tradicionais. Posso usar esses materiais?

Pode. Não há viés religioso nem doutrinário, e quem escolhe a ordem, o momento e o ritmo é você.

Existem dois tipos de mãe e pai: os que contam e os que deixam o mundo contar. A diferença entre os dois não está na informação que cada um tem, e sim em ter ou não um jeito de voltar no assunto sem que ele vire uma palestra.

O Diário de Adelaine custa R$ 69,90, com frete grátis para todo o Brasil.

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Se você quer se preparar antes de começar, existe também a aula Como Falar sobre Sexualidade Sem Sexualizar Nossas Meninas, gravada pela Berenice · R$ 29,90

Ver a aula
Berenice Shakti

Sobre quem escreve

Berenice Shakti é fisioterapeuta pélvica, especialista em sexualidade humana e educação menstrual, e professora de yoga há mais de vinte anos. É autora de O Diário de Adelaine, que passou de 30 mil exemplares, e das coleções de cartas para meninas e para meninos. É mãe de dois filhos.

@berenice_shakti no Instagram

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Este texto tem caráter informativo e não substitui consulta com pediatra ou ginecologista. Sinais de puberdade antes dos 8 anos devem ser avaliados por um profissional.

Referências

  1. UNICEF e UNFPA. Pobreza menstrual no Brasil: desigualdades e violações de direitos, 2021. brazil.unfpa.org
  2. UNESCO, UNAIDS, UNFPA, UNICEF, ONU Mulheres e OMS. Orientações técnicas internacionais de educação em sexualidade: uma abordagem baseada em evidências, edição revisada. unfpa.org
  3. Ministério da Saúde. Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos, SINASC, via DATASUS. Dados de nascidos vivos por idade da mãe, 2019 e 2024.
  4. IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, módulo Educação, 2023. Motivos de abandono escolar entre mulheres de 14 a 29 anos. educa.ibge.gov.br

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